segunda-feira, janeiro 18, 2016

o cinto



A madrugada respirava ainda o orvalho frio e delicioso quando ele despertou. Vestiu as calças de pele de cabra e colocou o cinto. Saiu de casa sem comer, como sempre, e começou a caminhar.
A cidade tinha espaços verdes com árvores centenárias. Ao redor, penedos e rochas cinzentas olhavam para baixo, vigiando o movimento das plantas e folhas nos fortes mas flexíveis ramos das árvores mais novas , que naquele momento se agitavam calmamente em consonância com a leve brisa que soprava como um assobio de velho treinado.
Caminhou sessenta e dois minutos e tudo estava calmo; as primeiras pessoas a sair de casa faziam-no contentes por viver mais um dia na sua metrópole. Uma espirrou, tirou o lenço do bolso e assoou-se; outra olhava para sul e sorria para a lua em quarto minguante; outra conduzia freneticamente o seu carro; ele viu-os aos três. Ao ver o carro a descer rapidamente a avenida principal franziu o sobrolho. Nesse momento, uma folha, levada por uma  brisa mais forte, foi embater no vidro do condutor embriagado que se assustou e guinou para a esquerda, perdendo o controlo do veículo; este, como um bicho de conta acossado, deu várias voltas sobre si mesmo e parou ao lado da estrada, em cima de um relvado, como se estivesse a descansar.
Ele correu, tirou o homem do carro, e percebeu que o irresponsável tinha uma grave hemorragia na perna direita. Tirou o cinto e fez um garrote acima da ferida.
Deixou o homem e correu durante vinte sete minutos, até ao quartel. Depois de certeiras informações, quatro bombeiros deslocaram-se rapidamente com ele até ao local do sinistro. Mais tarde veio-se a saber: graças ao cinto de cabedal a vida do infeliz fora salva.
A partir desse dia passou a carregar uma dúzia de elásticos no bolso de dentro do casaco.

0 Comentários:

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial